["Non... Rien de rien.../Non... Je ne regrette rien/C'est payé,/balayé, oublié,/Je m'en fous du passé!"]

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Canção de amor sem fim

E quase que,
Só te respiro
Poupando ar

Enquanto vejo
Estremeço
sensível em pulsar

Silencioso ver...

E quem saberá
Onde foi parar?
Aquilo que nem mesmo sei dizer
Nem tampouco chamar. 



Cores de outono

Outonos são outonos, percorrendo estações
Aqui ou no hemisfério norte ele é sempre o mesmo
Abundante em folhagens velhas distribuídas minuciosamente
Sobre o caminho que mais parece uma tela de pintor artista
Pela delicadeza de transparecer cores de múltipla cor
Amarelo, laranja, vermelho e até marrom...

Pode-se dizer outonear a transgressão da natureza
Que acontece quando as árvores perdem suas vestes para o chão
Nuas e revestidas de tantas outras novas e mais novas flores
Repetindo homeopaticamente a beleza dos dias
É o outono acontecendo querendo ser como de costume outono
Com pitadas de melancolia ao frio bondoso do entardecer...

Mas os outonos não são iguais
Em cada dia há um outono diferente dos outros outonos
Que este outono se faz lembrar.














Dura óssea

Não há perdão, nem haveria de ter
Incrustado no pensamento permissível
Da cópula da culpa. Cujo nome, retrato infame
Ironia de bem dizer... é o  Erro!
Mentira...
Não há perdão para aqueles que não sabem amar
Ocupados por demais com verdades, metidas à intrometidas
Disfarçando assim... qualquer mágoa patética.
Não há abstrato, não há concreto
Não há lamúria, não há choro, nem coisas desse tipo
Não há o que dizer
Não há nada pra ser criado ou crescer sobre as pedras,

torres de marfim...
Vertentes parece a de sempre, pesada.
Com suas caldas longas
cobrindo de serrado
 os caminhos que se encerram.

De noite lá/aqui!
Os lumes é que vagam
sopesando sobre os olhos dos alpendres
As janelas desconfiadas.

E... Quando só penso...

Vem dizer voz baixinha: A CIDADE DORME!
Sonolenta e obesa de si mesma
Ela nos espera... Ela se esfrega
Num mar de preguiça acéfala

Sobre uma luz que mais ofusca
Do que se espera ensinar
Retardando os inocentes desta terra
Talhando a cada dia o Sr. Pensar.

Conforme mandam as leis da natureza
Numa cena de Esteiros
Cosendo ou costurando
Costurando ou cosendo
Tanto faz a feitura

Será sempre a mesma sinfonia
Trabalhando em linha reta
Ainda esbanjando alegria
Nessa máquina: fantasia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

PANAPANÁ

Sei que o teu olhar condensa
Infinita beleza, tão assim...
Sem nome, nem porquês
Reboliço por dentro que destrói
Devassa qualquer fio de pensamento
Que não seja por ti... álibi.

És um Crime!
Sonhar-te a carne desnuda
É a súplica dos meus dias
E quando a noite vem...
Receio ter coragem pra pedir licença
E entrar em ti... nua de mim.

Quero sem medo
Roubar-te a capacidade
De prender-me sem esforço
À memória de teu corpo...
Crente que estais sempre
Na frete, por trás e aos lados... logo ali.


Mas sei também que a dor é nula
Como os conchavos perdidos
Resquícios sem medida
De ousadas manhãs fugidas...
Que ainda formam em meu avesso

Imensa nuvem de panapaná... por fim.  

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O negro e os buracos

 Fui concebido por um buraco
Por um buraco vim ao mundo
Num buraco, foi onde vivi

Primeira cena:
Junto aos ratos...

Em buracos me meti
Crescendo solto na buraqueira
Locus amuenus é meu buraco!

Segunda cena:
Junto as vespas apocritas...

De buraco em buraco
Rompem-se as ruas pelas beiras
Que há em mim esburacada

Terceira cena:
Junto aos gatos...

Me jogaram num buraco
Com tantos outros soterrados
Buracos, de aço, quadrados

Quarta cena:
Junto aos tigres...

Aprendiz de buraco
Lacunado de minha Génesis
Meu estômago é buraco

Quinta cena:
Jantando alguns cães...

De latidos fidalgos
Desconhecidos da buracaria 
Em minha cara com o Ferro faz buraco

Sexta cena:
Longe dos homens...

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O encontro



     Coincidentemente ou não, esta manhã (13 de outubro de 2015) acabei me deparando, sem perceber ao certo de quem se tratava, com uma figura muito importante segundo os homens. Tratava-se, era mesmo, do próprio Bandeira. Não notei de imediato que era ele ali, só vim dar conta do fato quando ele mesmo pronunciou: Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, muito prazer! Logo após lhe perguntar a hora. Trocamos inúmeras ideias, acabei que o perseguindo em sua caminhada matinal, ele me falou do quanto era chato, hoje, todo o Antigo Recife, me falou das músicas, me perguntou: sobre o sentido dos semáforos, dos prédios tão altos e com caixas enfileiras todas iguais? Comentou que achava interessante os camelôs... Por um momento, de tanto falarmos um com o outro, sentimos ao mesmo tempo monstruosa sede, com explicação. Foi quando ele (e sua sabedoria de ancião, de quem conhecia como a palma das mãos cada beco, cada rua) disse: vamos até o Mercado Boa Vista. De início fiquei surpreso com o convite, ou mesmo assustado eu diria. Até segunda ordem ele era um estranho pra mim, e aí digo: literalmente estranho. Mesmo assim, não tive como recusar, afinal era Bandeira que estava me chamando, fiquei sem jeito de dizer não. Fomos andando mesmo (ele não tinha Vem, nem eu, e igual a mim se recusava a pagar, a passagem absurdamente cara, inteira), (outra coisa que ele também não entendeu: os ônibus e o BRT), havíamos nos encontrado na Rua da Ventura (atual Joaquim Nabuco – como assim ele me esclareceu depois), pelo caminho ele me contava fatos irrelevantes na vida de um homem cuja identidade é tão importante, como o caso de uma briga de moleque que teria pego com um tal de Valentin, afilhado de um tio avô dele, e que estudavam no mesmo colégio das irmãs Barros Barreto, na Rua da Soledade. A cada rua antiga surgia uma conversa nova... era um tal de: tá vendo aquele prédio ali?! Era um morrinho onde subíamos pra soltar papagaio; tá vendo aquela praça ali?! Tinha um lago onde pescávamos quase o dia inteiro; tá vendo aquela esquina ali?! Não existia nada nesse lugar... e assim até chegarmos ao Mercado, sentarmos e tomarmos uma cerveja. Depois de alguns minutos ele olhou para mim e educadamente disse que precisava ir, que na realidade já passava de sua hora. Sem o interromper dos horários concordei e falei apenas: Tchau poeta!
De supetão, ele voltou os olhos novamente para mim e disse:

Não julgo ser poeta!
Talvez apenas, seja eu, um colhedor de palavras
Sim,...
Porque eu simplesmente as colho

Não os frutos dessa poemeira
Mas sim... as folhas em branco que balançam
E que de manchadas


Botam poemas. 


Foi aí que percebi, que o nosso encontro era já a poesia